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ToggleO novo paradigma da saúde corporativa baseada em valor
Imagine uma empresa que investe milhões em programas de saúde, mas não sabe se seus colaboradores estão realmente mais saudáveis. Esse é o retrato de grande parte das organizações hoje. Durante décadas, o sucesso da gestão de saúde corporativa foi medido por volume: quantas consultas, quantos exames, quantas palestras foram realizadas. Mas essa visão tradicional, baseada em quantidade, está ficando obsoleta.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 70% dos custos em saúde são destinados ao tratamento de doenças crônicas que poderiam ser prevenidas. Entretanto, esse modelo reativo gera altos gastos e, por conseguinte, resultados clínicos limitados.
É justamente nesse contexto que surge o VBHC (Value-Based Health Care), ou Saúde Baseada em Valor — uma abordagem que efetivamente muda o foco: o que realmente importa não é apenas quanto se faz, mas sim qual valor isso gera para o paciente, para a empresa e também para a sociedade.
Para as corporações, o VBHC representa uma oportunidade concreta de alinhar saúde, performance e, além disso, sustentabilidade financeira, reduzindo, assim, custos desnecessários e, ao mesmo tempo, melhorando a qualidade de vida dos colaboradores.
O que é VBHC (Value-Based Health Care) e como funciona nas empresas
O conceito de Value-Based Health Care foi criado por Michael Porter e Elizabeth Teisberg, professores da Harvard Business School, e apresentado no livro Redefining Health Care: Creating Value-Based Competition on Results (2006).
De forma simples, o VBHC propõe medir o sucesso de um sistema de saúde não pela quantidade de procedimentos realizados, mas pelos resultados de saúde alcançados em relação ao custo total do cuidado.
A equação é clara:
Valor em Saúde = Resultados Relevantes / Custo Total do Cuidado
Aplicado ao ambiente corporativo, o modelo se traduz em:
Valor para a empresa = Desfechos de saúde dos colaboradores / Custo total do programa de saúde
Mais importante do que o número de consultas ou exames é o impacto real na saúde, no bem-estar e na produtividade dos colaboradores.
O VBHC cria uma linguagem comum entre RH, área médica e financeiro, conectando o cuidado com resultados tangíveis: menos afastamentos, menor sinistralidade e maior engajamento.
Por que aplicar o modelo VBHC na gestão de saúde corporativa
Os custos com planos e benefícios de saúde crescem, em média, duas a três vezes mais rápido que a inflação geral, conforme dados da OECD Health Statistics.
Além disso, aproximadamente 80% desses custos estão concentrados em apenas 20% da população corporativa, principalmente entre colaboradores com condições crônicas ou múltiplos diagnósticos.
Dessa forma, com os custos crescendo e, paralelamente, a pressão por resultados aumentando, as empresas que desejam se manter competitivas precisam, portanto, transformar a saúde em um ativo estratégico. É justamente nesse ponto que o VBHC deixa de ser teoria para se tornar, de fato, uma prática de gestão baseada em valor.
Ao aplicar esse modelo, a empresa muda o foco do “quanto custa” para, em última análise, “quanto gera de valor”.
Isso permite identificar desperdícios, sobreuso e baixa pertinência do cuidado, três das principais causas de ineficiência na saúde corporativa.
Em outras palavras, VBHC é mais do que gestão de custos: é gestão de impacto e valor.
Cada real investido precisa retornar em forma de melhor desfecho clínico, redução de afastamentos e aumento da satisfação dos colaboradores.
Como destaca o British Medical Journal (BMJ) (BMJ Open, 2021), “a verdadeira sustentabilidade está em otimizar recursos para maximizar valor, não em simplesmente cortar gastos”.
Como aplicar o VBHC nas empresas: da teoria à prática
O desafio do RH e das áreas médicas corporativas é transformar o conceito de VBHC em prática. A seguir, veja as etapas fundamentais para aplicar o modelo dentro das organizações.
1. Escolha uma linha de cuidado para iniciar o modelo de gestão de saúde baseada em valor
Toda estratégia de VBHC começa com a escolha de uma linha de cuidado, um grupo de colaboradores com uma condição de saúde específica, acompanhada de ponta a ponta.
Exemplos corporativos:
- Dor lombar e osteomuscular: uma das principais causas de absenteísmo no Brasil;
- Gestantes: impacto direto em saúde materno-infantil e custos do plano
- Obesidade e doenças metabólicas: associadas a alto uso de benefícios e cronicidade;
- Saúde mental: relação direta com produtividade e turnover.
A escolha deve se basear em dados epidemiológicos da população corporativa, cruzando informações de absenteísmo, exames periódicos e utilização do plano de saúde.
2. Mapeie desfechos e indicadores de valor em saúde
Desfechos (outcomes) são os resultados concretos que representam o sucesso de um cuidado. Eles devem ir além de indicadores operacionais e se concentrar naquilo que o colaborador sente e vivencia.
Exemplos de desfechos corporativos:
- Diminuição de dor e melhora funcional (casos osteomusculares);
- Redução de IMC e pressão arterial (obesidade e doenças crônicas);
- Diminuição de crises de ansiedade e melhora do sono (saúde mental);
- Satisfação e engajamento com o cuidado recebido.
Esses resultados devem ser mensurados com instrumentos validados, como EQ-5D, PHQ-9, GAD-7 ou Oswestry, que permitem medir evolução clínica e percepção de qualidade de vida.
3. Use dados integrados e tecnologia para fortalecer a gestão baseada em valor
A essência do VBHC está na mensuração. Sem dados integrados, não há como medir valor.
O RH e o setor médico devem conectar dados de:
- Plano de saúde e sinistralidade;
- Exames ocupacionais e periódicos;
- Absenteísmo e presenteísmo;
- Pesquisas de satisfação e eNPS.
Esses dados formam a base para construir dashboards de indicadores, permitindo análises comparativas entre grupos e períodos.
A Harvard Business Review reforça que “medir resultados e custos em toda a jornada do paciente é o alicerce da competição por valor”.
4. Avalie pertinência e eficiência do cuidado médico e assistencial
No modelo tradicional, é comum encontrar colaboradores passando por tratamentos redundantes, exames desnecessários ou diagnósticos equivocados. O VBHC busca eliminar essas distorções.
Pertinência do cuidado significa oferecer a intervenção certa, no momento certo, para o paciente certo. Isso exige:
- Protocolos clínicos baseados em evidência;
- Revisão periódica dos fluxos de encaminhamento;
- Comunicação integrada entre profissionais de saúde.
Empresas que aplicam esses princípios reduzem desperdícios e aumentam a eficácia dos programas, otimizando tempo e investimento.
5. Crie um ciclo contínuo de melhoria e cultura de valor
VBHC não é um projeto pontual, mas um ciclo permanente de gestão em saúde corporativa. A cada rodada, os resultados devem ser analisados, comparados e aprimorados.
Um bom ciclo de valor inclui:
- Coleta contínua de dados clínicos, funcionais e de experiência;
- Reuniões periódicas entre RH, equipe médica e financeiro;
- Definição de metas de evolução baseadas em evidência;
- Ajustes rápidos diante de desvios de desempenho.
Como afirma o VBHC Center Europe, “o que não se mede, não se melhora. O que se compara, evolui.”
Case de sucesso: como o Walmart aplicou o VBHC para gerar valor em saúde
Um dos exemplos mais emblemáticos, aliás, da aplicação prática do modelo Value-Based Health Care vem da gigante americana Walmart.
Com mais de 1,5 milhão de colaboradores nos Estados Unidos, a empresa percebeu que o custo com saúde crescia de forma acelerada, porém sem a contrapartida de melhora nos resultados clínicos. Diante disso, o desafio era claro: melhorar a qualidade do cuidado e, ao mesmo tempo, reduzir o custo total por colaborador.
Em 2013, o Walmart lançou o programa Centers of Excellence (CoE), em parceria com instituições de referência como Cleveland Clinic, Mayo Clinic e Geisinger Health System. A proposta era simples, mas revolucionária: encaminhar colaboradores com indicações de cirurgias complexas, como ortopédicas, cardíacas e oncológicas, para centros de excelência que aplicassem o modelo VBHC, focando em resultados clínicos comprovados e pertinência do cuidado.
Em vez de pagar por procedimento, o Walmart passou a pagar pelo episódio completo de cuidado, incluindo avaliação, cirurgia (quando realmente necessária), reabilitação e acompanhamento pós-operatório.
Os resultados foram significativos:
- 30% de redução no custo médio de cirurgias ortopédicas;
- 40% de queda em procedimentos desnecessários, após reavaliações clínicas;
- Aumento da satisfação dos colaboradores, que receberam cuidado mais preciso e resolutivo;
- Retorno mais rápido ao trabalho, com menos complicações e reoperações.
Esses resultados, por sua vez, foram publicados na Harvard Business Review, que destacou o Walmart como um dos primeiros grandes empregadores a redefinir sua estratégia de saúde sob o prisma do valor, e não apenas do volume.
Mais do que isso, o programa gerou confiança e transparência entre a empresa, os profissionais de saúde bem como os colaboradores.
Desse modo, o modelo demonstrou que investir em qualidade, pertinência e, sobretudo, desfechos pode criar um ciclo de valor sustentável — tanto para o indivíduo quanto para a organização.
Em suma, o Walmart provou que é possível melhorar resultados clínicos e, ao mesmo tempo, reduzir custos de forma simultânea. No contexto corporativo brasileiro, essa lógica igualmente pode ser aplicada em programas de prevenção, gestão de crônicos e linhas de cuidado estruturadas — conectando, assim, o investimento em saúde diretamente aos resultados do negócio.
Como RH e área médica podem aplicar o VBHC nas empresas
A implementação do VBHC depende da atuação coordenada entre áreas. Cada setor tem um papel essencial na construção de valor.
RH: Alinha o discurso de saúde com a estratégia de negócio, engaja colaboradores e traduz resultados técnicos em impacto humano.
Área médica corporativa: Garante pertinência técnica e monitoramento clínico, acompanha casos crônicos e atua em conjunto com o RH para orientar decisões baseadas em evidência.
Financeiro (CFO): Avalia ROI, correlaciona custos e desfechos e apoia o investimento com base em dados de valor.
Quando essas três áreas caminham juntas, a empresa deixa de “comprar ações de saúde” e passa a gerar valor sustentável em saúde corporativa.
Indicadores e desfechos que comprovam o valor em saúde
PROCESSO
Exemplo: % de colaboradores que aderiram ao programa.
Processo: Mede a execução das ações.
DESFECHO CLÍNICO
Exemplo: Redução média de IMC, melhora da dor, melhora do sono.
Processo: Mede o resultado individual.
DESFECHO FUNCIONAL
Exemplo: Retorno ao trabalho, desempenho físico (EQ-5D).
Processo: Mede o impacto na capacidade de viver e trabalhar.
SATISFAÇÃO (PREMs)
Exemplo: eNPS, percepção de cuidado.
Processo: Mede a experiência.
FINANCEIRO
Exemplo: ROI, redução de sinistralidade e absenteísmo.
Processo: Mede o valor entregue à empresa.
Esses indicadores permitem uma gestão integrada entre saúde, finanças e produtividade.
Caminhos para implementar o VBHC com sucesso nas empresas
Implementar o modelo Value-Based Health Care é uma transformação cultural. Ela exige tempo, engajamento das lideranças e clareza sobre o propósito: gerar valor real em saúde para pessoas e organizações.
01) Comece por um projeto piloto
Escolha uma linha de cuidado de alto impacto, como dor lombar, obesidade, gestantes ou saúde mental. O piloto cria aprendizado e confiança, servindo como primeiro case de valor da empresa.
02) Estruture o baseline e defina indicadores
Colete dados de absenteísmo, exames, custos e autodeclarações de saúde. Estabeleça metas e indicadores de processo, desfecho, experiência e ROI.
03) Crie uma governança compartilhada
Forme um comitê de valor com RH, equipe médica e financeiro. Revise métricas e alinhe decisões com base em dados integrados.
04) Integre dados e tecnologia
Adote plataformas que unifiquem saúde ocupacional, assistência e produtividade. Dashboards permitem decisões rápidas e baseadas em evidência.
05) Engaje lideranças e comunique resultados
Envolva gestores e diretores, traduzindo métricas em conquistas estratégicas, como redução de afastamentos e ganho de produtividade.
06) Expanda com base em evidências
Use os aprendizados do piloto para escalar o modelo. Cada nova linha de cuidado deve manter a lógica do valor: medir, melhorar, comunicar.
Quando bem aplicado, o VBHC cria um ecossistema de saúde corporativa inteligente, no qual cada decisão é orientada por impacto real e sustentabilidade.
Benefícios esperados do modelo VBHC na saúde corporativa
Adotar o modelo Value-Based Health Care traz benefícios que vão além da redução de custos. Ele cria um ciclo virtuoso entre saúde, engajamento e performance, gerando valor sustentável para colaboradores e organizações.
Eficiência financeira e previsibilidade de custos
Em primeiro lugar, empresas deixam de pagar por volume e passam, assim, a investir em resultados. Dessa forma, reduzem desperdícios, evitam internações e, consequentemente, controlam a sinistralidade. De acordo com estudos da Harvard Health Publishing, há reduções médias de 15% a 25% em custos totais sem, contudo, perda de qualidade.
Melhoria de desfechos clínicos e funcionais
Colaboradores relatam menos dor, melhor disposição e maior capacidade funcional. Esse cenário se traduz em menos afastamentos e, ao mesmo tempo, em mais produtividade.
Aumento do engajamento e da experiência do colaborador
De modo semelhante, programas centrados no indivíduo geram adesão e, sobretudo, senso de pertencimento. Segundo a Gallup, empresas com foco em bem-estar têm 59% mais engajamento e, por consequência, 41% menos absenteísmo.
Cultura de saúde e alinhamento estratégico
O VBHC cria uma mentalidade orientada a valor. Assim, RH, área médica e CFO passam a compartilhar o mesmo propósito: afinal, investir em saúde é investir em performance.
ROI em programas de saúde
De fato, o retorno é mensurável e, além disso, previsível. Um programa de dor lombar baseado em VBHC pode, inclusive, gerar ROI de 3,1 em apenas seis meses, somando economia e também engajamento.
Fortalecimento da imagem institucional e ESG
Comunicar resultados de saúde reforça não apenas a transparência como também a responsabilidade corporativa, fortalecendo, desse modo, a marca empregadora e, em paralelo, o pilar ESG.
VBHC é cultura de valor, não projeto isolado
O modelo Value-Based Health Care representa uma mudança estrutural na forma como as empresas pensam, medem e, sobretudo, gerenciam saúde.
Trata-se não apenas de um conjunto de indicadores, mas sim de uma filosofia que coloca o colaborador no centro e, por conseguinte, o resultado como verdadeira métrica de sucesso.
Ao adotar o VBHC, o RH, a área médica e o financeiro passam a falar a mesma língua: a do valor em saúde.
E esse valor se traduz em colaboradores mais saudáveis, empresas mais produtivas e sociedades mais sustentáveis.
“VBHC é mais que uma metodologia. É um novo jeito de cuidar das pessoas e medir o sucesso das empresas.”
No fim, a pergunta que todo líder precisa se fazer não é se pode investir em um programa de saúde baseada em valor — mas se pode se dar ao luxo de não investir.
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