Por Bruna Pinheiro – Nutricionista, especialista em Obesidade, Emagrecimento e Saúde na Vital Work
Os medicamentos GLP-1 mudaram a conversa sobre obesidade. E essa conversa já chegou às empresas.
Para gestores de RH e benefícios, uma das primeiras questões é quase inevitável: a empresa deveria ajudar a pagar o medicamento? A pergunta faz sentido. Quando pensamos em um tratamento de uso contínuo para uma população que pode ser significativa dentro da organização, o impacto no orçamento chama atenção rapidamente.
Nos Estados Unidos, onde essa discussão já está mais avançada, o movimento ajuda a mostrar o tamanho do desafio. Segundo uma pesquisa realizada em 2026 pelo Business Group on Health, 67% dos grandes empregadores pesquisados ofereciam cobertura de GLP-1 para controle de peso. Ao mesmo tempo, quase 8 em cada 10 afirmaram que esses medicamentos estavam aumentando os custos de saúde de suas organizações.
É fácil entender por que o preço da caneta ganhou tanto espaço nessa conversa. Mas existe uma pergunta que talvez precise vir antes:
quanto custa não cuidar da obesidade?
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ToggleA conta da obesidade já existe — mesmo que ela não apareça em uma única linha
Quando uma empresa decide subsidiar um medicamento, o custo aparece imediatamente. Existe um valor novo no orçamento e é relativamente simples enxergá-lo em uma planilha.
Com a obesidade, essa conta é muito mais espalhada. Parte pode aparecer no plano de saúde, no tratamento de condições associadas como diabetes tipo 2, hipertensão, doenças cardiovasculares, apneia do sono e problemas osteomusculares. Outra parte pode surgir nos afastamentos, nas limitações funcionais e na produtividade.
Uma revisão sistemática publicada no BMJ Open, que reuniu 50 estudos sobre obesidade e trabalho, encontrou justamente essa relação. Os estudos apontaram que absenteísmo e presenteísmo — quando a pessoa está trabalhando, mas sua condição de saúde interfere na capacidade produtiva — estão entre os componentes importantes dos custos indiretos relacionados à obesidade.
A dimensão econômica do problema também aparece no Brasil. Um estudo publicado na PLOS ONE estimou que obesidade, hipertensão e diabetes representaram aproximadamente R$ 3,45 bilhões em custos para o SUS em 2018. Considerando os custos próprios da obesidade e sua participação nos gastos relacionados ao diabetes e à hipertensão, ela respondeu por 41% desse total.
Naturalmente, esse número não pode ser transportado diretamente para o orçamento de uma empresa. Mas ajuda a mostrar algo importante: o custo da obesidade não começa quando a organização decide oferecer tratamento. Ele já pode estar presente de diferentes formas.
Por isso, quando uma empresa calcula quanto custaria investir em uma estratégia de obesidade, o ponto de comparação não deveria ser zero. Ela pode não estar pagando GLP-1 hoje, mas provavelmente já está pagando parte das consequências da doença.
Onde o GLP-1 entra nessa conta?
Os GLP-1 ganharam tanto espaço porque mudaram significativamente as possibilidades de tratamento da obesidade.
No estudo STEP 1, publicado no New England Journal of Medicine, pessoas com sobrepeso ou obesidade tratadas com semaglutida 2,4 mg, associada a mudanças no estilo de vida, apresentaram redução média de aproximadamente 14,9% do peso corporal em 68 semanas, comparada a 2,4% no grupo placebo.
Com a tirzepatida, os resultados foram ainda maiores. No SURMOUNT-1, também publicado no New England Journal of Medicine, a redução média de peso chegou a 20,9% em 72 semanas, dependendo da dose utilizada.
E a discussão começa a ir além da balança. No estudo SELECT, que acompanhou mais de 17 mil adultos com sobrepeso ou obesidade e doença cardiovascular estabelecida, mas sem diabetes, a semaglutida reduziu em 20% o risco relativo de eventos cardiovasculares graves, como morte cardiovascular, infarto não fatal ou AVC não fatal.
Estudos de vida real também começam a investigar o que pode acontecer com a utilização dos serviços de saúde. Uma análise publicada em 2025 encontrou 37% menos internações e 21% menos atendimentos em pronto-socorro por todas as causas entre pacientes tratados com semaglutida 2,4 mg e um grupo comparável que não utilizava medicamentos para obesidade.
Como esse último estudo é observacional, não podemos dizer que o medicamento sozinho provocou toda essa diferença. Mas ele ajuda a ampliar a conversa: tratar a obesidade adequadamente pode produzir impactos que vão além do número que aparece na balança.
E é justamente aqui que a discussão fica interessante para as empresas.
Pagar a caneta pode fazer parte da estratégia. Mas não pode ser toda a estratégia.
Imagine que uma empresa decida amanhã subsidiar GLP-1 para seus colaboradores com indicação clínica.
A primeira decisão está tomada: haverá investimento no medicamento.
Mas logo surgem outras perguntas. Quem poderá participar? Quais serão os critérios de elegibilidade? Todos receberão o mesmo nível de subsídio? Como essas pessoas serão acompanhadas? O que acontece quando alguém apresenta dificuldade para aderir ao tratamento ou decide interrompê-lo?
E existe uma pergunta especialmente importante para o RH: depois de seis meses ou um ano, como saber se aquele investimento realmente melhorou a saúde da população?
Não por acaso, empresas que já estão lidando com esse desafio começaram a adicionar outras camadas à cobertura. No levantamento do Business Group on Health, aparecem estratégias como validação de elegibilidade clínica e participação em programas estruturados de manejo do peso. Em outra pesquisa da organização, 90% dos empregadores que ofereciam GLP-1 para obesidade exigiam autorização prévia, 54% vinculavam a cobertura à participação em um programa de controle de peso e 48% adotavam critérios adicionais relacionados a IMC e/ou comorbidades.
Isso mostra uma mudança importante. A discussão deixa de ser apenas “vamos pagar?” e passa a ser “para quem esse investimento faz sentido e como vamos transformar acesso em resultado?”
Nem todo colaborador precisa da mesma solução
Quando falamos de obesidade dentro de uma empresa, estamos falando de pessoas em situações muito diferentes.
Há quem esteja começando a ganhar peso e possa se beneficiar principalmente de prevenção. Há pessoas que já vivem com obesidade, mas ainda não apresentam outras condições associadas. E existem colaboradores com obesidade acompanhada de diabetes, hipertensão, apneia do sono ou outros fatores que aumentam significativamente o risco à saúde.
Por isso, oferecer exatamente a mesma solução para todos dificilmente será a estratégia mais eficiente.
Para alguns colaboradores, o cuidado pode estar mais concentrado em alimentação, atividade física e mudança de comportamento. Outros podem precisar de acompanhamento nutricional ou clínico mais estruturado. E, em situações específicas e mediante indicação médica, o tratamento farmacológico pode fazer parte dessa jornada.
Essa talvez seja uma das mudanças mais importantes na forma de olhar para o tema:
o programa não é a caneta. A caneta é uma das ferramentas que podem fazer parte do programa.
Inclusive, essa visão de cuidado mais amplo não está restrita às empresas. A própria Organização Mundial da Saúde, em sua orientação sobre GLP-1 para obesidade, reforça que medicamentos não resolvem sozinhos o desafio da doença e prevê intervenções comportamentais estruturadas envolvendo alimentação saudável e atividade física como parte desse cuidado.
Entre pagar tudo e não oferecer nada existem outros caminhos
Quando a discussão começa apenas pelo medicamento, é fácil cair em duas possibilidades: ou a empresa paga a caneta ou decide não entrar nessa conversa.
Mas existe um espaço enorme entre esses dois extremos.
Uma organização pode priorizar o subsídio para grupos de maior risco. Pode compartilhar o custo do medicamento com o colaborador. Pode estabelecer critérios de elegibilidade diferentes ou financiar uma jornada de acompanhamento clínico e nutricional mesmo quando a compra da medicação permanece sob responsabilidade do participante.
Também é possível trabalhar com diferentes níveis de cuidado. Pessoas com maior risco ou mais condições associadas podem receber uma jornada mais completa, enquanto outros grupos participam de estratégias de prevenção e acompanhamento adequadas às suas necessidades.
Não existe um único modelo correto para todas as organizações. O melhor desenho é aquele que consegue equilibrar necessidade clínica, acesso, orçamento e resultado.
Se a empresa investir, precisa saber o que mudou
Imagine dois cenários. No primeiro, ao final de um ano, a empresa sabe exatamente quanto gastou com medicamentos.
No segundo, além de conhecer esse investimento, ela sabe quantas pessoas permaneceram no cuidado, quantas alcançaram uma perda de peso clinicamente relevante, como evoluíram os principais fatores de risco e o que aconteceu com as condições associadas.
Também consegue acompanhar indicadores relacionados ao negócio, como utilização do plano de saúde, afastamentos, absenteísmo, capacidade funcional e satisfação dos participantes.
Essa é a diferença entre simplesmente oferecer um benefício e efetivamente gerenciar saúde.
O número de canetas financiadas não mostra se uma estratégia funcionou. E nem mesmo os quilos perdidos, isoladamente, contam toda a história. É a combinação de indicadores clínicos, assistenciais e organizacionais que permite entender se aquele investimento está realmente gerando valor.
Afinal, GLP-1 gera ROI para a empresa?
Essa talvez seja a pergunta mais difícil — e também uma das mais importantes.
Os estudos mostram benefícios clínicos relevantes dos GLP-1 para populações e indicações específicas. Mas isso não significa que toda empresa que subsidiar o medicamento terá automaticamente redução dos custos assistenciais no curto prazo.
O próprio Business Group on Health mostrou em 2026 que, embora mais da metade dos empregadores que cobriam GLP-1 esperassem benefícios clínicos importantes, poucos ainda conseguiam enxergar esses resultados em seus dados agregados de utilização, por exemplo, na redução da obesidade ou da necessidade de cirurgia bariátrica.
Isso acontece também porque resultados em saúde aparecem em tempos diferentes. A melhora de fatores de risco, condições associadas ou capacidade funcional pode surgir antes de uma eventual mudança nos custos médicos. Da mesma forma, impactos sobre afastamentos e produtividade precisam ser observados ao longo do tempo.
Por isso, uma estratégia de saúde corporativa não deveria partir da promessa de que o GLP-1 “se paga”. Deveria partir de uma lógica mais consistente: entender qual problema a empresa quer enfrentar, definir quais resultados importam e acompanhar o que realmente aconteceu.
ROI em saúde não deve ser presumido. Precisa ser medido.
GLP-1 nas empresas: a decisão precisa ir além da cobertura do medicamento
A chegada dos GLP-1 abriu uma nova possibilidade para o tratamento da obesidade, mas também colocou uma decisão importante na mesa das empresas. A questão não é simplesmente definir se a organização deve ou não pagar pelo medicamento. Antes disso, é preciso entender o perfil da população, os riscos existentes, quanto a obesidade já impacta a saúde e os custos da empresa e quais grupos podem se beneficiar de diferentes níveis de cuidado.
A partir dessa visão, a discussão sobre investimento também se torna mais estratégica. Para algumas empresas, pode fazer sentido subsidiar o medicamento para determinados grupos. Para outras, compartilhar esse custo ou concentrar o investimento no acompanhamento pode ser um caminho mais sustentável. Em todos os casos, o ponto de partida deveria ser o mesmo: transformar uma decisão sobre benefício em uma estratégia de saúde que possa ser acompanhada e medida ao longo do tempo.
É justamente essa lógica que orienta os programas de cuidado da obesidade da Vital Work. A partir do perfil e das necessidades de cada população, é possível estruturar jornadas que combinam prevenção, acompanhamento clínico e nutricional, navegação do cuidado e monitoramento de indicadores — com ou sem subsídio ao medicamento pela empresa.
Mais do que oferecer uma solução pronta, o objetivo é ajudar cada organização a responder às perguntas que realmente importam: quem precisa de cuidado, qual modelo faz sentido para essa população e quais resultados queremos transformar?
Porque, quando falamos de obesidade, a pergunta não deveria ser apenas quanto custa tratar. É preciso entender também quanto custa continuar cuidando do problema da mesma forma.