Por Bruna Pinheiro – Nutricionista, especialista em Obesidade, Emagrecimento e Saúde na Vital Work
Os medicamentos GLP-1 mudaram as possibilidades de tratamento da obesidade. Mas quem vive uma jornada de perda de peso sabe que o tratamento não acontece apenas no momento da aplicação ou dentro do consultório.
Ele acontece no almoço durante o trabalho, no fim de semana, na tentativa de criar uma rotina de atividade física, nos dias em que a balança não muda e até nos momentos em que a motivação diminui. E, mesmo com medicamentos cada vez mais eficazes, todos esses desafios continuam existindo.
Por isso, à medida que o uso de GLP-1 cresce, outra discussão também ganha importância: o que ajuda uma pessoa a sustentar essa jornada ao longo do tempo?
Já levantamos essa questão quando perguntamos se pagar a caneta é suficiente nos programas corporativos de obesidade.
A resposta passa pelo acompanhamento profissional, mas não termina nele. Suporte social, troca de experiências e comunidades de apoio também podem ajudar a manter as pessoas conectadas ao cuidado e às mudanças que precisam acontecer na vida real.
E existe uma razão simples para isso: mudar é difícil. Mudar ao lado de pessoas que estão vivendo desafios parecidos pode ser diferente.
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ToggleEmagrecer é individual. Mas não precisa ser uma jornada solitária.
Cada pessoa vive a obesidade de uma forma. O tratamento pode envolver alimentação, atividade física, acompanhamento médico e nutricional, mudanças de comportamento e, quando existe indicação, medicamentos.
Mas existe algo em comum entre praticamente todas essas jornadas: o resultado depende de continuidade.
Não é uma única refeição que muda um hábito. Não é uma semana de atividade física que constrói uma nova rotina. E não é apenas iniciar um medicamento que resolve tudo o que envolve viver com obesidade.
É justamente aqui que a presença de outras pessoas pode ganhar valor.
Uma revisão sistemática publicada na Clinical Obesity comparou intervenções individuais e em grupo para adultos com obesidade. No longo prazo, quem participou das intervenções em grupo teve, em média, melhores resultados de perda de peso. Em parte dos estudos analisados, os participantes tiveram 36% mais chance de alcançar uma perda de pelo menos 5% do peso corporal quando comparados às intervenções individuais.
Isso não significa que simplesmente reunir pessoas em um mesmo espaço fará com que elas emagreçam mais. Mas reforça uma ideia importante: a dimensão social também pode fazer parte do processo de mudança.
Uma comunidade oferece mais do que incentivo
Quando pensamos em uma comunidade de perda de peso, é fácil imaginar um espaço em que as pessoas compartilham frases motivacionais ou comemoram os quilos perdidos.
Mas seu valor pode estar justamente nas trocas muito mais simples.
É alguém compartilhar uma ideia de refeição que funcionou em um dia de pouco apetite. Outra pessoa contar como conseguiu voltar a se exercitar depois de semanas parada. Alguém dizer que o peso também ficou estagnado por um período — e perceber que isso não significa que todo o esforço foi perdido.
É encontrar pessoas que entendem aquela experiência porque também estão vivendo algo parecido.
A ciência ajuda a explicar por que essas interações podem importar. Uma revisão publicada no International Journal of Obesity analisou estudos de perda de peso que incluíam alguma forma de conexão ou suporte social. Os pesquisadores encontraram benefícios ao final das intervenções e também nos meses seguintes, embora ressaltem que ainda precisamos entender melhor quais formatos de suporte funcionam melhor.
Ou seja: comunidade não é uma solução mágica. Mas existe evidência suficiente para considerar o suporte social como uma parte relevante da jornada de perda de peso.
Para quem usa GLP-1, ter uma rede de apoio também pode fazer diferença
O medicamento muda parte da jornada. Não elimina tudo o que existe ao redor dela.
Quem utiliza GLP-1 continua precisando pensar em alimentação, atividade física, preservação de massa muscular e construção de hábitos que possam ser sustentados ao longo do tempo.
E surgem também novas situações.
Como organizar a alimentação quando o apetite diminuiu muito? De que forma garantir uma ingestão adequada de proteínas? Por onde começar para voltar a se exercitar? O que fazer em uma semana em que a perda de peso desacelerou? Que estratégias ajudam a manter os novos hábitos quando a motivação inicial diminui?
Algumas dessas questões precisam, naturalmente, ser discutidas com médico ou nutricionista. Uma comunidade de apoio não substitui o acompanhamento profissional e não deve ser um espaço para prescrição, indicação de medicamentos ou orientação sobre doses.
Mas existe uma parte da jornada que não é prescrição.
É experiência.
E poder trocar experiências, dificuldades e conquistas com pessoas que estão passando por situações semelhantes pode fazer com que o participante se sinta menos sozinho e permaneça mais conectado ao processo.
Comunidade e acompanhamento profissional cumprem papéis diferentes
Imagine uma pessoa que consulta com seu nutricionista uma vez por mês. Durante a consulta, ela pode receber orientações individualizadas, revisar sua evolução e definir as próximas metas. Esse momento é importante.
Mas o mês continua quando a consulta termina. Nas semanas seguintes haverá almoço no trabalho, supermercado, fim de semana, aniversário, viagem, dias de cansaço, dias de pouca fome e talvez uma semana inteira em que seguir a rotina será mais difícil.
É nesse espaço que uma comunidade pode atuar. Não para substituir a consulta, mas para manter o cuidado presente entre uma consulta e outra.
A orientação profissional continua sendo individualizada. A comunidade acrescenta outra camada: troca, identificação, incentivo, pertencimento e continuidade. São funções diferentes — e justamente por isso podem funcionar juntas.
Um grupo reúne pessoas. Uma comunidade cria vínculo.
Criar um grupo em uma plataforma e adicionar dezenas de participantes não significa construir uma comunidade.
Uma comunidade precisa fazer com que as pessoas encontrem motivos para voltar.
Uma revisão recente publicada na Obesity Reviews, que analisou 61 estudos sobre interações digitais relacionadas à perda de peso, ajuda a mostrar o que pode existir dentro dessas relações. O tipo de apoio mais encontrado foi a troca de informações, presente em 83% dos estudos. Também apareceram reconhecimento e incentivo, sensação de fazer parte de uma rede e suporte emocional. Isso aproxima bastante a evidência daquilo que acontece na vida real.
Às vezes, o participante entra porque quer encontrar uma receita. Em outro momento, volta porque quer compartilhar uma conquista. Pode participar de um desafio, responder à experiência de outra pessoa ou simplesmente acompanhar o que os demais estão fazendo.
A mesma revisão encontrou que, em alguns estudos, maior engajamento nas interações digitais esteve associado a melhores resultados. Ao mesmo tempo, também identificou riscos, como comparações negativas e dinâmicas pouco saudáveis.
Por isso, uma boa comunidade de saúde precisa ser construída e cuidada.
Precisa ter propósito, moderação, estímulos relevantes, presença profissional quando necessária e limites claros sobre o tipo de orientação que pode acontecer naquele espaço.
Comunidade também pode ajudar na adesão
Para qualquer programa corporativo de saúde, existe uma diferença enorme entre fazer alguém entrar e conseguir fazer essa pessoa permanecer.
A inscrição é só o começo.
Uma iniciativa comunitária de manejo da obesidade publicada na literatura científica ajuda a ilustrar esse ponto. No programa, os participantes contavam com atividades em grupo e eram estimulados a envolver pessoas próximas como parte da rede de suporte. Entre os participantes que iniciaram a intervenção, cerca de 80% concluíram o programa. Além disso, não ter um familiar ou amigo formalmente envolvido no suporte esteve associado a uma chance quase três vezes maior de não completar a jornada.
Isso nos dá uma pista interessante sobre algo que muitas vezes é subestimado no cuidado da obesidade: sentir-se apoiado pode influenciar a capacidade de continuar.
Para uma empresa, isso importa muito. Porque um programa pode ter excelentes profissionais, uma boa plataforma e um tratamento eficaz. Se o participante abandona a jornada depois de poucas semanas, grande parte desse potencial se perde.
E existe evidência dentro do próprio ambiente de trabalho
Essa discussão fica ainda mais interessante quando olhamos especificamente para programas corporativos.
Um estudo randomizado publicado na PLOS ONE avaliou 194 trabalhadores com excesso de peso ou obesidade. Parte deles participou de um programa de mudança de estilo de vida com suporte em grupo, enquanto o grupo de comparação recebeu aconselhamento alimentar.
Ao final da intervenção, 19,6% dos participantes do programa em grupo alcançaram perda de 6% do peso corporal, contra 4,1% no grupo de comparação. Os participantes também apresentaram melhora em medidas de autoeficácia, suporte de amigos e qualidade de vida.
Novamente, não é possível atribuir todo o resultado apenas ao fato de as pessoas estarem juntas, porque o programa reunia diferentes estratégias. Mas o estudo mostra que incorporar suporte social dentro de uma intervenção de saúde no ambiente de trabalho é uma estratégia que merece atenção.
E isso nos leva a uma pergunta importante para os programas corporativos de obesidade: estamos oferecendo apenas acesso ao cuidado ou estamos criando condições para que as pessoas permaneçam nele?
Engajamento não acontece porque o programa existe
Esse talvez seja um dos maiores desafios de qualquer iniciativa corporativa de saúde. A empresa lança o programa. Faz a comunicação. Os colaboradores se inscrevem. As primeiras consultas acontecem.
E, algumas semanas depois, parte das pessoas começa a desaparecer. Porque o entusiasmo do início diminui. A rotina volta. Surgem outras prioridades. A mudança fica difícil.
Por isso, engajamento não deveria ser pensado apenas como uma estratégia para fazer o colaborador entrar no programa. Engajamento precisa ser construído ao longo da jornada.
Uma comunidade de apoio cria novos pontos de contato com o cuidado. Pode trazer desafios, conteúdos, conversas, compartilhamento de conquistas e estímulos que façam o participante lembrar que existe uma jornada acontecendo.
O programa deixa de aparecer apenas quando existe uma consulta marcada. Ele passa a fazer parte da rotina.
No ambiente digital, proximidade não depende de estar no mesmo lugar
Para empresas com colaboradores em diferentes unidades, cidades ou modelos de trabalho, comunidades digitais podem ser especialmente interessantes.
Elas permitem que alguém participe no momento em que aquela troca faz sentido — sem precisar esperar pela próxima consulta ou por um encontro presencial.
E a literatura sobre intervenções digitais começa a mostrar potencial nessa direção. Uma revisão sistemática publicada em 2024 no International Journal of Obesity encontrou resultados favoráveis de perda de peso em intervenções online realizadas em grupo para pessoas com obesidade grave, embora os autores também ressaltem que a qualidade da experiência e o engajamento são determinantes.
Isso reforça novamente uma diferença fundamental: a tecnologia cria o espaço. A comunidade é o que acontece dentro dele.
Não importa se ela está em um aplicativo, plataforma ou outro ambiente digital. Se ninguém participa, se o conteúdo não conversa com a realidade das pessoas e se não existe troca, existe apenas mais um canal.
O valor começa quando aquele espaço passa a fazer parte da jornada.
Para a empresa, comunidade também precisa gerar informação
Se comunidade faz parte da estratégia de saúde, seu impacto também pode ser acompanhado. Não se trata de medir apenas quantas mensagens foram publicadas ou quantas pessoas entraram na plataforma.
É possível observar participação, frequência de interação, adesão aos desafios, permanência no programa e utilização dos diferentes recursos oferecidos. E, principalmente, relacionar esses dados à evolução da jornada.
Participantes mais engajados permanecem mais tempo no programa? Comparecem mais às consultas? Conseguem sustentar melhor mudanças de hábitos? Apresentam evolução diferente?
Essas perguntas ajudam a transformar comunidade de uma funcionalidade interessante em uma estratégia de engajamento que pode ser acompanhada e aprimorada.
O futuro dos programas corporativos de obesidade não será uma caneta. Será uma jornada.
Os GLP-1 abriram uma nova possibilidade no tratamento da obesidade. Mas nenhum medicamento transforma sozinho todos os contextos em que uma pessoa vive, se alimenta, trabalha, se relaciona e constrói seus hábitos.
Por isso, talvez a próxima evolução dos programas corporativos de obesidade não esteja em escolher entre medicamento, acompanhamento ou comunidade.
Está em conectar essas três coisas.
O medicamento pode fazer parte do tratamento. O acompanhamento profissional ajuda a direcionar o cuidado. E a comunidade pode criar uma rede de apoio para que essa jornada continue acontecendo entre uma consulta e outra.
Nos programas de cuidado da obesidade da Vital Work, as comunidades de apoio podem fazer parte dessa jornada ao lado do acompanhamento clínico e nutricional, da navegação do cuidado, da educação em saúde e do monitoramento da evolução.
Não como um grupo criado apenas para reunir participantes. Mas como um espaço pensado para gerar troca, identificação, engajamento e continuidade.
Porque o tratamento da obesidade precisa respeitar as necessidades de cada indivíduo.
Mas ninguém precisa viver essa jornada sozinho.